sábado, 24 de maio de 2008

O FILÓSOFO E DEUS

A seguir, em ordem histórica, a visão de pensadores ocidentais, da antiguidade grega até o século 20, e a maneira como a idéia de Deus permeou as teorias de cada um deles.

ARISTÓTELES

Nenhum pensador influenciou mais o pensamento científico do que o grego Aristóteles. Autor de uma obra caudalosa, criador de disciplinas como a l´gica, seus conceitos e preconceitos ainda hoje ecoam na filosofia, nas ciências e nas artes. Nasceu em Estagira, Macedônia, em 384 a.C. e morreu na ilha de Eubea, em 322 a. C. Ainda jovem, ingressou na célebre Academia de Platão, em Atenas, lá permanecendo por 19 anos. Ao contrário do mestre, que via no mundo material uma cópia grosseira do mundo perfeito das idéias, Aristóteles considerava que os conteúdos intelectuais derivam da observação da natureza propiciada pelos sentidos. Isso, no entanto, não o levou ao ateísmo. Para Aristóteles, os entes naturais (uma pedra, uma árvore) são impermanentes: chegam a ser e deixar de ser. Nesse sentido, não são plenamente seres. Já os entes ideais (uma figura geométrica, um número) são insubstanciais: só existem na mente e não fora dela. Nesse sentido, também não são propriamente seres. Só reunindo as duas condições, permanência e substância, o ente poderia, segundo Aristóteles, ser considerado ser; e esse ser pleno, para o filósofo, é Deus. Mas não o Criador, idéia que só viria a se consagrar no pensamento cristão. Deus é essência pura, separado da realidade sensível. É o que Aristóteles chama de Primeiro Motor Imóvel, que move o mundo como causa final, sem ser por ele movido ou tocado.

GALILEU
O matemático e físico italiano Galileu Galilei foi, ao lado do francês René Descartes, o principal responsável pela concepção “moderna” de natureza que logo encontraria sua expressão acabada na física do inglês Issac Newton, adotada pelas gerações seguintes como paradigma de todas as ciências. Galileu nasceu em Pisa, no ano de 1564, e morreu em Arcetri, perto de Frorença, em 1642. De suas muitas contribuições científicas, a principal foi a criação de uma nova disciplina, a cinemática, ciência que estuda o movimento dos corpos independente das forças que os produzem. O célebre processo movido pela Inquisição contra Galileu, devido a sua exaltada propaganda do heliocentrismo de Copérnico, alimentou o mito de um cientista ateu. Isso não é verdade. Galileu foi um católico que jamais pôs em dúvidas as palavras da Bíblia. Criticava, sim, o fato de que argumentos derivados de uma interpretação literal do texto bíblico pudessem ser utilizados para contestar teorias científicas. Ele escreveu: “A sagrada Escritura e a natureza vêm, todas as duas, da palavra divina... mas, enquanto a Bíblia, acomodando-se à inteligência do comum dos homens, fala, na maioria dos casos, e com razão, a partir das aparências, e emprega termos que não são destinados a expressar a verdade absoluta, a natureza se conforma invariavelmente às leis que lhe foram dadas. Não se pode, apelando para os textos das Escrituras, colocar em dúvida um resultado adquirido por proas seguras”. Todos os argumentos contra o sistema heliocêntrico apresentados no julgamento de Galileu foram tirados de uma interpretação não só literal, mas até mesmo rasteira da Bíblia. Se se lembrar que um dos maiores filósofos do cristianismo medieval, João Escoto Erígena, afirmou, Já no século 9, que as Escrituras admitem infinitos níveis de interpretação, percebe-se o quanto o pensamento religioso havia declinado na época de Galileu. Não é de se espantar que o materialismo conquistasse tantas posições poucos séculos depois.

DESCARTES
Considerado “o primeiro homem moderno”, René Descartes, nascido em La Haye, França, em 1596, e morto em Estocolmo, Suécia, em 1650, estudou em colégio jesuíta o que o levou, na juventude, ao completo ceticismo. Para conhecer o mundo, alistou-se em vários exércitos. Retido pelo inverno num quartel da Alemanha, entrou num processo reflexivo em que chegou a duvidar da própria existência. Mas logo percebeu que o próprio ato de pensar exigia que ele, uqe pensava, fosse alguma coisa. E expressou essa percepção na célebre frase “Penso, logo existo”, adotada como primeiro princípio de sua filosofia. A seqüencia de seus pensamentos o conduziu à concepção da alma como uma realidade inteiramente distinta do corpo, e a idéia de Deus como “substância infinita, eterna, imutável, independente, absoluta, onisciente e onipotente, criadora das existências, das essências e verdades eternas, das evidências, formas matemáticas e valores morais”.

As principais contribuições científicas de Descartes foram a criação da geometria analítica, a correta enunciação do principio da inércia e a formulação das três leis fundamentais da reflexão e da refração da luz. Sua influência, porém, foi ainda muito maior, pois deriva diretamente de Descartes o paradigma mecanicista que dominou por três séculos todo o pensamento científico. A distinção radical entre “substância infinita” (Deus), “substância pensante” (alma) e “substância extensa” (matéria), levou-o a conceber o universo como um mecanismo gigantesco, e os próprios seres vivos como autômatos complexos, regidos por leis físicas imutáveis, totalmente desprovidas de qualquer conotação anímica ou espiritual. Essa desespiritualização do mundo é o que Descartes tem de caracteristicamente moderno. Gerações mais tarde, ele iria levar ao ateísmo.

NEWTON
Com Newton, a física moderna e o paradigma mecanicista na qual ela se apóia chegaram à sua suprema realização. A ponto de o filósofo alemão Imanuel Kant ter considerado a física de Newton como sendo a própria ciência. De fato, somente no século 20, com a Teoria da Relatividade (Einstein) e a Teoria Quântica (Bohr, entre outros), os fundamentos da física newtoniana foram postos em xeque. Um dos maiores gênios de todos os tempos, esse inglês neurótico, celibatário, rancoroso e vingativo nasceu no lugarejo de Woolsthorpe, no natal de 1642, e morreu em Kensington, em 1727. Entre outras façanhas intelectuais, criou o cálculo diferencial e integral, formulou rigorosamente as três leis fundamentais da mecânica, decompôs experimentalmente a luz branca nas sete cores do arco-íris e, principalmente, estabeleceu a Teoria da Gravitação Universal, cujo enunciado é: “Matéria atrai matéria na razão direta da massa e na razão inversa do quadrado da distância”. Essa teoria unificou a física terrestre de Galileu com a física celeste de Kepler. Embora Newton se dedicasse na intimidade à alquimia e outras disciplinas ocultas, sua visão de mundo pública, derivada de Descartes, era rigorosamente mecanicista. Regido por leis inflexíveis, o universo newtoniano se parece com um imenso relógio de corda. Mas tal mecanismo não é fruto do acaso. “Este magnífico sistema do sol, planetas e cometas”, escreveu Newton, “somente poderia proceder do conselho e domínio de um ser inteligente e poderoso. E, se as estrelas fixas são o centro de outros sistemas similares, estes, sendo formados pelo mesmo conselho sábio, devem estar todos sujeitos ao domínio de alguém”. E acrescentou: “Esse ser governa todas as coisas, não como alma do mundo, mas como senhor de tudo, Senhor Deus Pantokrátor, ou Soberano Universal”.O traço mais marcante da concepção teológica de Newton, também presente em Aristóteles e Descartes, é a radical separação entre Deus e o mundo. Este nao é uma emanação ou manifestação do próprio Deus, como ocorre em Avicena, mas sua criação e domínio. A pesar de estar presente sempre e em todos os lugares, Deus governa o mundo, por assim dizer, de fora. Ele não é o ser único de que falou Plotino, mas um ser entre outros: o ser supremo, infinito, eterno e absolutamente perfeito. Entre todos os atributos divinos, a ênfase de Newton recai no poder. A relação do Deus newtoniano com suas criaturas não é uma relação amorosa, mas uma relação de poder. Fruto do “espírito do tempo”, do século 17, de certa leitura do Antigo Testamento e do Apocalipse de São João e, certamente, dos conflitos psicológicos do próprio Newton, seu Deus, embora impessoal, foi concebido à imagem e semelhança de um monarca absolutista.

FREUD

Se houvesse analisado a obra de Newton como fez com a de Leonardo da Vinci, Sigmund Freud, o fundador da psicanálise, certamente teria interpretado a concepção teológica newtoniana como conseqüência de um “complexo paterno”. E provavelmente estaria com a razão. O problema é que, para Freud, toda e qualquer concepção religiosa era fruto do “complexo paterno”. Ao escrever sobre a origem psíquica da idéia religiosa, Freud as tratou como “ilusões, realizações dos mais antigos, fortes e prementes desejos da humanidade”. E explicou: “... a impressão terrificante de desamparo na infância despertou a necessidade de proteção, a qual foi proporcionada pelo pai. Desta vez, porém, um pai mais poderoso”.
Nascido em Freiberg, hoje Príbor, na atual República Checa, em 1856, e morto em Londres, no ano de 1939, o judeu de cultura alemã Sigmund Freud formou sua visão de mundo num meio cultural dominado pelo paradigma mecanicista. Mais exatamente, numa das suas versões tardias, o positivismo cientificista do século 19, para o qual só existe um tipo de conhecimento possível e verdadeiro: o da ciência.Começamos a perceber hoje que, por mais geniais e revolucionários que tenham sido suas teorias sobre a estrutura dinâmica da psique, elas não ultrapassam os grandes marcos paradigmáticos estabelecidos por Galileu, Descartes e Newton. Não é muito difícil perceber que o ateísmo radical de Freud, tão em voga entre os pensadores do final do século 19 (Max, por exemplo), tem suas raízes na separação entre Deus e o mundo postulados pelos fundadores da ciência moderna.Quanto ao “complexo paterno” de que fala Freud, não resta dúvida que ele influencia (sobredetermina) em larga medida as concepções religiosas da humanidade. Mas daí a dizer que constitui sua causa única ou mesmo principal é outra história. Por outro lado, seria o caso de perguntar se o ateísmo de Freud não é também causado, no nível psicológico, por uma revolta bastante edipiana contra a figura do pai.

EINSTEIN

A Teoria da Relatividade de Albert Einstein constitui indiretamente a primeira critica radical da física moderna (newtoniana) e do paradigma mecanicista, superando idéias clássicas como as de espaço e tempo absolutos, independentes dos fenômenos, ou da distinção entre matéria e energia. Nascido em 1879, na cidade alemã de Ulm e morto no ano de 1955 em Princeton Estados Unidos. Esse judeu cidadão do mundo tornou-se a maior celebridade científica de todos os tempos. Sua oposição a toda forma de rigidez mental manifestou-se já na infância. A despeito de ter sido agraciado com o prêmio Nobel de 1922, sua rebeldia, integridade intelectual e o fato de ser judeu obrigaram-no a abandonar a Alemanha durante a ascensão do nazismo. Mesmo sem possuir uma sólida formação filosófica, Einstein refletiu com certa profundidade sobre numerosos temas. O impulso mais poderoso que o levou a trabalhar em física teórica, em busca dos fundamentos do universo era, segundo suas palavras, “um sentimento cósmico religioso”. “Tenho a impressão”, escreveu, “de que os hereges de todos os tempos da história da humanidade se nutriam com essa forma superior de religião. Contudo, seus contemporâneos muitas vezes os tinham por suspeitos de ateísmo, e, às vezes também, de santidade”. E prosseguiu: “como poderá se comunicar de homem a homem esta religiosidade, uma vez que ela não permite chegar a nenhum conceito determinado de Deus, a nenhuma teologia? Para mim, o papel mais importante da arte e da ciência consiste em despertar e manter despertado o sentimento desta religiosidade naquele que está aberto a ela.